domingo, 12 de fevereiro de 2012

A menina que não amava

 Cecília era uma menina como todas as outras, exceto por um pequeno detalhe. Cecília não amava, ela não sabia amar, nunca soube. As pessoas ao seu redor, seu pai, sua mãe, tios, primos, amigos, com frequência diziam que amava alguma coisa, fosse um determinado sabor de picolé, um filme, uma roupa ou nos casos mais sérios, pessoas. E junto com o amor, vinha o ódio, porque não se pode amar sem odiar. Eu amo isso, odeio aquilo. Eram palavras fáceis de se pronunciar, mas mesmo asism Cecília não conseguia. Não conseguia porque não sabia como, achava que ódio e amor eram duas palavras muito fortes, com significados muito profundos para serem ditos em vão.  Ela não sabia amar ou odiar, mas nem por isso era uma pessoa sem sentimentos. Gostar era uma coisa que ela sabia fazer. Ela também mantinha um carinho profundo pelas pessoas, ela admirava as coisas belas, sentia repulsa com cheiros desagradáveis, ria, pulava, brincava, gostava muito das pessoas, e também não gostava nem um pouco de outras, mas amar? Não, Cecília não amava.
Amar para ela era algo desconhecido, algo que ela não sabia como descrever. Já ouvira e lera muitas vezes o significado de amor, mas nunca conseguiu de fato entender do que se tratava. Ouvira e lera muitas coisas boas sobre o amor, sobre como ele te deixava nas nuvens e te fazia esquecer de todos os problemas. Mas ela também ouvira e lera coisas ruins, ouvira dizer que o amor machucava as pessoas, fazia elas sofrerem como nunca haviam sofrido antes. No fundo, ela tinha medo de amar. Medo não, Cecília tinha fobia de amar!
Sua infância se passou muito bem, esse seu "pequeno" medo nunca a atrapalhou em muita coisa. A menina foi pega de surpresa quando os anos se passaram e o verbo amar passou a ser dito com mais frequência. Por algum motivo que ela não conseguia entender, todas as suas amigas sonhavam com as três palavrinhas. Era como se fosse mágico. Ao contrário das suas amigas, para Cecília, aquelas três palavras não significavam nada para ela, não causavam nada nela. Aliás, na verdade, sim, aquelas três palavras despertavam algo dentro da menina: pavor, pânico, medo, terror. E diante de todas esses sentimentos que lhe viam à tona quando alguém falava em amor, era óbvio que Cecília não conseguia entender porque todos queriam ouvi-las.
E então ele surgiu, não de repente, foi surgindo aos poucos, mas teve grande importância. Eles pularam a fase da amizade e foram direto para a faze do "gostar". Gostar era um verbo que não a incomodava, ela já estava habituada a dizer que gostava das coisas, mas ela sabia que depois de gostar, o próximo verbo era amar, e isso a deixava apavorada. Brincou de gostar até o último segundo que pode, ela gostava de gostar, era um sentimento que a agradava e não lhe causava pânico. Resistiu enquanto pode e quando percebeu que aquelas três palavras estavam para serem ditas, fugiu. Fez de tudo para voltar para o "gostar", ela se esforçou tanto que passou direto para o "não gostar". Ela sabia que essa sua atitude desesperada machucava as pessoas, mas não conseguia não fazê-la. O medo era mais forte. 
De vez em quando, Cecília se perguntava se um dia ela seria capaz de aceitar ser amada e amar de volta. Criava tantas expectativas sobre esse dia que talvez tivesse medo dele. Com o passar dos anos, chegou à conclusão de que amar alguém significava se render a esse alguém, admitir diante da sociedade que ela não era forte o bastante. Ela era orgulhosa demais e medrosa demais para deixar que isso acontecesse. Cecília fez 89 anos sem nunca ter amado alguém, ou pelo menos nunca ter admitido amar alguém. Morreu solitária sem nenhum vestígio de amor em seu coração.
***
Ufa! Esse ficou grande, hein? Tive que aproveitar a inspiração. O que vocês acharam do texto? Opiniem nos comentários, adoro saber o que vocês pensam! A propósito, gostaria de aproveitar para agradecer todos os comentários construtivos e bem opinativos que tenho visto de vez em quando e por todos os elogios que os meus amigos me deram. Isso tudo me deixa muito!!! feliz e me motiva a continuar com o blog, cada vez com mais entusiasmo. Obrigada de verdade.

7 comentários:

  1. Aghhh, ficou incrível! E apesar do mesmo tema o seu conto ficou ótimo! Não quero ser que nem a Cecília e seu final trágico!
    Amei *-*

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  2. gostei muito, parabéns

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  3. Um dos melhores blogs existentes, leio ele todos os dias!!!

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  4. Que lindo texto, me vi sendo Cecilia em algumas partes, às vezes tenho pavor do amor. Esse conto me lembrou um livro que marcou minha vida, mostra problema de "isolamento" da sociedade, de gente que tem medo das pessoas, de se apegar a elas, o nome do livro é A Garota dos pés de vidro, se tiver uma chance leia pois o personagem principal tem essa fobia e é realmente interessante.
    Bjin*

    http://deardiary-sucker.blogspot.com/

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  5. Nossa , gostei muito e acabei me identificando no texto .. tenho medo de amar :S mas não quero continuar assim

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  6. Amei o texto, super lindo :D

    http://blog-sundaedecereja.blogspot.com/

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  7. Gostei das palavras e do assunto, só acho que ficou repetitivo. De resto, ta lindo!

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